O HOMEM-ARANHA DE STAN LEE E JOHN ROMITA: COM GRANDES PODERES, GRANDES CHOQUES GERACIONAIS

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Essential Spider-Man, vol. 2, 3, 4 e 5
[Amazing Spider-Man #39-102, 105-110]
Stan Lee, John Romita, Mike Esposito, Jim Mooney, John Buscema, Gil Kane et al.
Marvel, 1966-1971 [ASM] e 1997-2002 [Essentials]

Steve Ditko, o co-criador do Homem-Aranha, deixou de desenhar a série do personagem na edição #38. Isso foi no início de 1966: um dia ele chegou na redação da Marvel, deixou as páginas originais do gibi com a secretária de Stan Lee e pediu que ela lhe avisasse que aquilo seria tudo. Ele nem desenhou a capa de sua última edição, que foi montada no bullpen a partir de quadrinhos do interior do gibi.

O motivo pelo qual Ditko deixou a série é objeto de frequente especulação entre o nerdismo de quadrinhos. Seria por não ser reconhecido [e consequentemente remunerado] como seu escritor? Isso não explica porque ele deixou a série naquele momento, uma vez que essa situação perdurava há pelo menos um ano; e Ditko pediu demissão no mesmo dia em que receberia um aumento de cinco dólares por página.

Seria a divergência que ele mantinha com Lee sobre a identidade do Duende Verde? Ditko queria que fosse um personagem novo e desconhecido, enquanto Lee queria que fosse Norman Osborn. De novo, isso não explica porque Ditko deixou a série naquele momento, já que esse problema existia há anos [a primeira aparição do personagem fora em Amazing Spider-Man #14]. Também não parece coerente com outras coisas: foi Ditko que sugeriu que o Duende Verde fosse um humano [e não um… duende verde]: não é, portanto, como se o personagem fosse uma ideia que Lee tivesse criado e nutrido desde sempre, e sobre a qual estivesse disposto a se indispor com Ditko. E o recurso narrativo [vilão de identidade secreta] já fora utilizado em edições anteriores. Existiam, portanto, precedentes em que a diferença entre os dois sobre o assunto fora resolvida de forma satisfatória.

Uma explicação mais narrativa e menos fofoqueira é a seguinte: história que Ditko tinha para contar chegou ao fim. É bastante claro que ele tinha um objetivo: mostrar como Peter Parker se tornou um herói, contra tudo e contra todos. Também parece evidente que ele fez isso em The Amazing Spider-Man [ASM a partir de agora] #33. Daí só se precisa dar um pulinho para concluir que Ditko viu nos meses seguintes que não fazia mais sentido que ele permanecesse na série, motivo pelo qual a edição #38 parece uma paródia: tem todos os elementos das outras histórias do Homem-Aranha, menos o sentido.

STAN LEE



Faz mais ou menos trinta anos que o nerdismo articulado olha para os fãs de Stan Lee de soslaio. Ele deve ser a primeira celebridade dos quadrinhos a ser problematizada: o The Comics Journal faz beicinho ao falar sobre ele desde os anos 80. Olhando a repercussão sobre a sua morte, é fácil entender por quê.

Quase todos os grandes portais tratam Lee como "o homem que criou os heróis da Marvel". Isso é, na melhor das hipóteses, uma meia verdade: ainda que Lee tenha participado da criação da maioria dos personagens dos primeiros anos da editora, o fez em grau variável; e o alcance dessa participação sobre o efetivo sucesso dos personagens é ainda mais variável. 

Isso é fácil de entender quando você tem em conta que quadrinhos são um meio eminentemente colaborativo, que ocorre ao longo do tempo, e que dá para definir de forma mecânica qual foi a colaboração de cada quadrinista envolvido para o sucesso de um personagem. Quanto do sucesso do Quarteto Fantástico ou de Thor pode ser atribuído aos diálogos de Lee, e quanto à grandiosidade dos desenhos de Jack Kirby? Quanto do sucesso do Homem-Aranha pode ser atribuído ao carrossel de vilões-bicho, e quanto a Steve Ditko e suas neuras? Quanto da revolução que a Marvel representou era puramente visual -- e quanto da parte não visual de fato foi criada por Lee, o homem que escrevia tramas resumidas e diálogos?


O CALEIDOSCÓPIO: CAPITÃO BRITÂNIA, DE ALAN DAVIS, DAVE THORPE E ALAN MOORE:

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Capitão Britânia
Alan Moore, Alan Davis, Dave Thorpe, Helen Nally e Andy Seddon
[Panini, 2015]

Antes de atravessar o Atlântico, o Alan Moore escreveu três gibis marcantes: V de Vingança, Marvelman, e Capitão Britânia.

Capitão Britânia, mesmo sendo o seu único trabalho-trabalho para a Marvel [ainda que através da sua subsidiária britânica, Marvel UK], é o mais ignorado. No entanto, das três séries também é a que melhor oferece um panorama da carreira de Moore dentro e fora das quatro linhas dos quadrinhos: de perto, é possível enxergar nessa série pedacinhos de gibis tão diferentes quanto D.R. & Quinch e Monstro do Pântano, Watchmen e The Birth Caul, além de tretas bizantinas que fizeram dele esse ermitão moderno.

Não é, no entanto, um panorama simples. A melhor forma que eu encontrei de expô-lo foi agrupando desmontando a série em pedaços para reagrupá-la em capítulos temáticos. Isso não está muito longe da forma que Moore começou a trabalhar na própria hq: e é essa técnica de approach que nós começamos a resenha:

STEVE DITKO



Morreu Steve Ditko.

Ao redor dos meus vinte anos, e por diferentes motivos, passei o verão de uns três anos seguidos em Torres -- a praia do RS que está mais próxima de SC, geográfica e esteticamente, pra vocês que não são aqui da região.

Na condição de ser nerdoso, isso me dava bastante tempo livre: o que que eu ia fazer na praia, certo?

Para a minha sorte, acabei descobrindo um sebo de quadrinhos na cidade. Ele era administrado por um tiozinho meio hippie (ele falava “bicho”; já tá bom, né?), que transformava o escritório de arquitetura de sua esposa em uma caverna de gibis a venda. Ficava no subsolo de um prédio comercial. Os gibis eram caros, mas vários. O dono não me enxotava e dava assunto. E eu não precisava me preocupar com o sol. Evidentemente, comecei a ir lá todos os dias. 

Acho que é a isso que chamam de moleque sarnento.


FRANK MILLER BEGE: THE DARK KNIGHT RETURNS: THE LAST CRUSADE DELUXE EDITION, DE FRANK MILLER, BRIAN AZZARELLO, JOHN ROMITA JR. E PETER STEIGERWALD

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The Dark Knight Returns: The Last Crusade Deluxe Edition
Frank Miller, Brian Azzarello, John Romita Jr. e Peter Steigerwald.
[DC Comics, 2016]

Desdobrar a resenha de uma hq em análises separadas do argumento, do roteiro e do desenho deve ser algum tipo de falácia: no final das contas, o que se está fazendo é deixar a própria hq, que é a união desses elementos, em um segundo plano. 

No caso de The Last Crusade, no entanto, isso parece inevitável. Assim que foi anunciado que as novas histórias ambientadas no universo do Cavaleiro das Trevas seria produzidas em equipe [com Brian Azzarello e John Romita Jr., no caso de The Last Crusade, e Andy Kubert, no caso de Dark Knight III], a pergunta que ecoou pela nerdosfera foi sobre qual seria a participação de Frank Miller no processo -- além de fornecer o nome e pegar o cheque.

É fácil entender o porquê. Muito embora duas de suas melhores hqs tenham sido feitas em parceria [A Queda de Murdock e Batman: Ano Um], disso faz uns trinta anos. A parceria, ainda, com um dos melhores desenhistas de quadrinhos disponível: David Mazzucchelli. Nas suas outras hqs, Miller trabalhou sozinho, ou em parceria apenas na colorização e na arte-final -- mesmo assim exercendo considerável controle sobre as duas coisas: taí a treta que ele teve com Klaus Janson por conta da arte-final de O Cavaleiro das Trevas que não me deixa mentir. Ele nunca trabalhou em parceria com outro roteirista.

Foi assim que ele se tornou o principal auteur dos quadrinhos americanos ainda em atividade: fazendo exatamente aquilo que ele mesmo pensou em fazer. Pense na confusão mental dos monólogos de Marv em um temporal de tinta branca sob a escuridão da página preta: aquela história foi pensada para ser contada daquele jeito; aquele jeito foi pensado para contar essa história. 

Por isso é pertinente começar a olhar The Last Crusade por aquele ângulo: parece pertinente saber até que ponto ele corresponde à vontade de um cara idiossincrático como Miller, o motivo pelo qual você se interessou pelo gibi no final das contas.

DE ONDE VIEMOS, PARA ONDE VAMOS: O QUE SEPARA WARLOCK, DE JIM STARLIN, DOS FILMES DA MARVEL

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Warlock: The Complete Collection
Jim Starlin
[Marvel, 2014]

A Marvel atual começou uma empresa pequena e recém-falida, e que tinha por objetivo apenas arrancar alguns centavos de crianças e adultos envergonhados. Stan Lee era um editor desesperado que, de uma salinha que dividia apenas com uma secretaria, reuniu mais algumas pessoas desesperadas para trabalhar naquilo que ocupava na escala de moralidade das pessoas comuns uma posição intermediária entre esquemas piramidais e pornografia. O seu conselho para os seus funcionários era “peguem o dinheiro e corram”. 

Não é de se estranhar que ele fosse cínico. Lee era um escritor frustrado, careca e quarentão, que trabalhava no mesmo lugar desde os 19 anos de idade, quando conseguiu o emprego por ser parente de alguém que conhecia o dono da empresa. Durante todo esse tempo, a empresa fora periférica e oportunista, atuando em um ecossistema econômico formado quase que exclusivamente por parasitas de intenções suspeitas: a líder do mercado recém se livrara de suas conexões com a máfia e a pornografia barata.

Ao perceber que tudo estava na iminência de dar errado, de novo, ele resolvera apostar tudo em uma convicção pessoal. Não havia nada a perder: não iria dar certo de qualquer jeito mesmo. Ele reuniu alguns quadrinistas desesperados e lançou alguns heróis novos.

Cinquenta anos depois, heróis criados por essas pessoas, nessas condições, foram levados para o cinema. Lá, viraram filmes calculados para o sucesso global: planejados ao longo de uma década, arrecadam mais ou menos a mesma coisa que o fisco de um pequeno país. 

Não me entendam mal: poucos são os filmes do Marvel Studios que eu não gostei, e só não fico mais feliz pelo sucesso que eles fazem nas bilheterias porque não sou um acionista do estúdio. O meu ponto é que, do desespero ao planejamento, do vai que cola ao profissionalismo, do nicho ao público global, alguma coisa nas histórias deve ter mudado. O que ficou para trás? Em Vingadores: Guerra Infinita, Thanos usa seus poderes para jogar uma lua nos heróis: o que um gibi daqueles poderia fazer que um filme da Marvel não pode?

PETER PAN DE RÉGIS LOISEL X DISNEY X J. M. BARRIE: AS MUITAS FORMAS DO GAROTO QUE NÃO QUERIA CRESCER

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Peter Pan, volumes 1-3
Régis Loisel
[Editora Nemo, 2013]

J. M. Barrie foi a primeira pessoa a se dar conta de que acertou em alguma coisa ao criar Peter Pan: ele dedicou ao personagem, que poliu continuamente, pelo menos uns dez anos de sua vida, até mais ou menos decidir-se por uma versão ultimate no livro Peter and Wendy

Ainda na primeira metade do século passado, ele deixaria de estar só. Peter and Wendy foi uma versão estendida e romanceada de uma peça de teatro que estreara em 1904 (Peter Pan, or The Boy Who Wouldn't Grow Up) e cujo sucesso já levara à publicação de outro livro (Peter Pan in Kensington Gardens) com uma versão mais primitiva do personagem. Tirando uma pá de livros mais decididamente infantis (incluindo o relato ilustrado The Peter Pan Picture Book, de Alice Woodward e Daniel O'Connor, de 1907), mais recentemente o personagem protagonizou uma série de livros, escrita por Dave Berry e Ridley Pearson, fora outro que se propõe a ser uma “continuação autorizada” (Peter Pan in Scarlet, de Geraldine McCaughrean).

O primeiro filme foi lançado em 1924 (produzido pela Paramount), e foi seguido pelo desenho animado da Disney (de 1953, o último filme no qual os Nove Anciãos trabalharam em conjunto). Esse desenho ganhou uma continuação em 2002 (Retorno à Terra do Nunca). Só nos últimos 15 anos, o personagem protagonizou dois outros filmes (Peter Pan, de 2003, e Pan, de 2015). Tem ainda pelo menos dois musicais da Broadway, de 1950 e 1954.

Tudo isso não é só pra te permitir fazer uma balaca no TCC de um curso de comunicação, dizendo que Peter Pan era um personagem transmídia na primeira metade do século passado, mas para mostrar que ele já teve diversas versões, ao longo de 100 anos, em diferentes meios. 

É justo concluir que isso aconteceu porque o personagem tem um certo potencial universal e alguma ressonância arquetípica. Existe inclusive, uma considerável bibliografia sobre o assunto, principalmente entre junguianos -- o tipo de pessoa que se preocupa com coisas de potencial universal e ressonância arquetípica, e que acabou por fazer de Síndrome de Peter Pan virou um termo da psicologia pop. 

Entre todas essas versões, a de Régis Loisel está entre as melhor sucedidas -- pelo menos comercialmente, como mostram os frios números: originalmente publicada na França em seis álbuns entre 1992 e 2006 (e lançados pela Nemo no Brasil em três álbuns de capa dura, ao longo de 2013), alcançou alguns milhões de álbuns vendidos e levou o Grand Prix de Angoulême em 2006.

Seria fácil atribuir esse sucesso ao apelo mainstream, ao menos em termos franceses, da hq: o formato original (álbum colorido de 48 páginas), sem piruetas no uso da linguagem, os elementos próximos da fantasia heroica, a nudez, o prêmio em Angoulême; é assim que se faz uma BD campeã de vendas.

No entanto, essa explicação seria um pouco cínica: ela ignora o papel que a hq tem dentro dessa tradição de reinterpretações de seus personagens e os seus méritos próprios. O que não deixa de ser engraçado, porque a principal característica da versão de Loisel para o personagem é exatamente o cinismo.

MARVELS, DE KURT BUSIEK E ALEX ROSS: TERRÍVEIS MARAVILHAS

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Marvels
Kurt Busiek e Alex Ross
[Marvel, 2017]

As poucas resenhas que existem sobre Marvels costumam explicar a minissérie como o marco inaugural de uma nova “Era” dos quadrinhos, batizada, provavelmente por fãs de quadrinhos que se dão mais importância do que deveriam, de Renascença. 

Grant Morrison, que talvez seja o fã de quadrinhos que se dá mais importância do que deveria arquetípico, é um deles: no seu livro SupergodsMarvels é o primeiro gibi da lista de leituras recomendadas do período.

Morrison não é um qualquer para falar sobre o assunto. Na segunda metade dos anos 90, o auge da [suposta] Renascença dos quadrinhos, ele era a principal estrela da indústria americana [ainda que isso, em grande parte, seja por conta do auto-exílio de Alan Moore e Neil Gaiman]: desde então, o seu nome passou a estar associado à reapropriação ao mesmo tempo nostálgica e irônica de ideias da Era de Prata, uma das características daquela “Era”.

Se vista desde perto, no entanto, essa análise é superficial.

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E OS MANGÁS

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Analía S. Costa escreveu um artigo, na Revista de Filología Románica [publicada pela Universidad Complutense de Madrid] sobre como a Segunda Guerra Mundial foi “lembrada e representada” nos mangás durante o pós-guerra. Tem Keiji Nakazawa, Shigeru Mizuki e Osamu Tezuka.

Ela escolheu sete mangás, publicados entre 1961 e 1998: Zero-sen Redo [1961], de Hiroshi Kaizuka, Shindekai no Taka [1963-1965], de Tetsuya Chiba, Gen, Pés Descalços [1973-1975], de Nakazawa, Sōin gyokusai seyo! [1973], de Mizuki, Adolf [1983-1985], de Tezuka, e Sensō ron [1998]: de Kobayashi Yoshinori.


Esses mangás, é a tese dela, refletem o discurso dominante sobre a guerra nas épocas em que foram publicados: alguns tratam os soldados como heróis que foram explorados pelas autoridades, outros retratam o país como uma vítima da guerra.

Gen, Pés Descalços está na segunda categoria: “ainda que nos anos 70 muitos mangás tivessem como tema principal a crítica à guerra, poucos denunciaram os crimes de guerra cometidos pelo exército japonês. Por isso, o Japão seguiu aparecendo como uma vítima, não apenas da bomba atômica e, portanto, dos EUA, mas também do seu próprio passado militarizado”. [QUADRINHOS]

FRANK MILLER: “O BATMAN DE DK2 É UM REVOLUCIONÁRIO”

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A dissertação de mestrado de Stephen Matthew Jones de tal foi sobre o heroísmo nos gibis de Frank Miller. Ele fala especialmente de Sin City, o filme, e O Cavaleiro das Trevas 2. O objetivo é estudar “o que a sociedade considera um modelo heroico, e se esse modelo pode ser visto como progressista ou opressivo em relação aos grupos não-dominantes”, mas alguns insights são interessantes e Northrop Frye está na bibliografia.

O que Jones faz é relativizar o beco politicamente incorreto no qual Miller, em tese, se encurralou. Assim, ele trata o Batman de Cavaleiro das Trevas 2 como um revolucionário e enfatiza o papel das prostitutas de Old Town como símbolos da luta contra o patriarcado.

Ainda que sim, seja de uma forna "problemática"

No processo, faz algumas análises interessantes, não apenas sobre Cavaleiro das Trevas 2 e Sin City [belamente dissecado e analisado como filme noir], mas também sobre outros grandes gibis de sua carreira. Como Elektra Assassina e Born Again: “Elektra é um modelo do herói existencial, um tipo autodeterminado que é recorrente na obra de Miller. Como em Born Again, o herói individual serve melhor aos interesses do país que agentes do governo com alianças cegas”. [QUADRINHOS]

WILL EISNER E CHARLES M. SCHULZ: É A GUERRA

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Malin Bergström escreveu a sua dissertação de mestrado sobre como Will Eisner e Charles Schulz retratam a guerra nos seus gibis. No caso de Eisner, a hq analisada foi Ao Coração da Tempestade. No de Schulz, evidentemente, foi Peanuts.

Pode te parecer estranho que a tira do Snoopy, mas uma das coisas que Bergström explica é como o acampamento de verão para o qual Charlie Brown era anulamente enviado funcionava, frequentemente, como uma figura de linguagem para a convocação de um soldado.

O que Bergström faz é comparar o que as hqs e os autores tem em comum. Os dois, por exemplo, participaram da Segunda Guerra Mundial e tratam o "serviço militar como uma oportunidade para crescer e madurar".

No entanto, Schulz, que de fato foi para a linha de frente, "deixou de ser um indivíduo isolado e tímido, e desenvolveu uma carreira militar", descrevendo "o retorno para a vida de civil como anti-climático". Em Peanuts, ele "trabalha de forma consciente para lembrar a Guerra Mundial", comemorando os seus veteranos e lembrando do Dia D de forma anual. 


Enquanto isso, Eisner, ainda que tenha se tornado "decidido em servir ao seu país na guerra" depois de convocado, não deixou o "homefront", sem ir à frente de batalha. Ele opta, no entanto, "por não mostrar esse fato aos leitores. A sua decisão de se focar apenas na jornada para a base militar permite que a Eisner conectar a sua narrativa à memória coletiva da convocação, ainda que a verdadeira experiência do convocado seja significativamente diferente".  [QUADRINHOS]

DOUTOR ESTRANHO, DE JASON AARON E CHRIS BACHALO: CONTRA NEWTON

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Doutor Estranho, #1-6
Jason Aaron, Chris Bachalo, Tim Townsend, Al Vey, Mark Irwin, Victor Olazaba, Jaime Mendoza e John Livesay
[Panini, 2016-2017]

É fácil entender por que, ao relançar o gibi do Dr. Estranho, a Marvel não decidiu trocar Stephan Strange por outro personagem mais novo, modernoso e de alguma minoria. A ideia, evidentemente, era ter uma série pronta para o público do filme: a editora ainda alimenta a esperança de convertê-lo aos gibis e, em tese, é mais fácil fazê-lo quando o personagem principal da série é o mesmo que as pessoas viram no cinema.

Em tese, também, faz sentido entregar essa série para Jason Aaron e Chris Bachalo. Eles não são apenas dois dos nomes mais conhecidos da editora: são também uma dupla funcional, responsável pela última série mutante [Wolverine and the X-Men] a fazer sucesso em algum sentido.

Mas a Nova Marvel é como o escorpião da fábula: não consegue contrariar a sua natureza. Não adianta dar para o personagem o mesmo nome e aparência daquele que fez sucesso no cinema: as pessoas não foram lá procurar uma aliteração e opções duvidosas sobre pelagem facial. E, do personagem do filme [e até mesmo do personagem dos quadrinhos, ao menos em sua versão "tradicional", na falta de uma palavra melhor], é apenas isso que o Dr. Estranho de Aaron e Bachalo manteve.

O "novo" Dr. Estranho [literalmente: a aparência dele é de um jovem; a culpa pode ser exclusivamente de Bachalo, que só sabe desenhar adolescentes] é descolado, engraçadinho e complexado de uma forma que o personagem nunca foi antes.

FROM HELL E WATCHMEN: QUADRINHOS REPETIDOS

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Alan Moore é um tarado da linguagem dos gibis. Oskari Rantala escreveu um artigo para explicar uma das formas pelas quais isso se manifesta: o uso de quadrinhos repetidos dentro de uma mesma hq [especificamente, From Hell e Watchmen]. O artigo saiu na Nordic Journal of Science Fiction André Fantasy Research.

A tese é que, em Watchmen e From Hell, a repetição de quadrinhos é usada para "representar a cognição super-humana do Dr. Manhattan" e "as experiências mágicas do sir William Gull".


Para mostrar isso, ele analisa Watchmen #4 e o capítulo 14 de From Hell. O primeiro é o gibi do Dr. Manhattan em Marte. O segundo, é o capítulo que "revela o conceito mais especulativo de From Hell: os assassinatos do Estripador são apenas parte da monstruosa arquitetura da história, e o assassino estava, ao menos parcialmente, dirigido por forças escuras e ctônico". [QUADRINHOS]

G. WILLOW WILSON: TATUAGEM NO CÓCCIX

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Jia Tolentino escreveu um perfil de G. Willow Wilson, a roteirista de Ms. Marvel, para a revista The New Yorker. O tom é evidentemente celebratório, mas o perfil é informativo.

Dá para descobrir que Wilson é uma muçulmana "secularizada" [ainda que não dê para saber o que isso significa]. Filha de "esquerdistas seculares que abandonaram o protestantismo nos anos 60" para os quais "o ateísmo não era apenas cientificamente certo, mas moralmente imperativo".

Depois de enfrentar problemas de saúde e flertar com o budismo, cristianismo, judaísmo, se decidiu pelo islã [ou pelo menos por aquela versão que não tem espaço nos países islâmicos]: "como uma boa universitária, fez uma tatuagem no cóccix: diz 'al haq', que significa 'verdade absoluta'". [QUADRINHOS]

WATCHMEN E ANIMAL MAN: PÓS-MODERNO

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Martin Holub é doutor. Isso nos importa porque a tese dele é sobre quadrinhos e pós-modernismo. Foi defendida na Universidade Carolina de Praga e está disponível, em inglês, aqui.

São três capítulos. No primeiro Holub fala dos elementos pós-modernos dos quadrinhos. No seguinte, analisa Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, como um exemplo de gibi pós-moderno. Para mostrar isso, ele fala dos elementos desconstrucionistas da hq, do papel dos uniformes de seus heróis em relação à sua sexualidade, e a não linearidade da narrativa. 


Sobre essa última, Holub explica: “uma percepção verdadeiramente não-linear de uma história, até agora, só foi possível nos quadrinhos: apenas neles você pode comunicar eventos separados em um mesmo momento, um através de palavras, outro das imagens”.


Na terceira parte, o exemplo de gibi pós-moderno analisado é Animal Man, de Grant Morrison. Animal Man é um gibi evidentemente metaficcional: a hq “usa a metaficção como uma forma de contar a história e comentá-la ao mesmo tempo”. Também é “auto-reflexiva e introspectiva” de uma forma irônica: “a sua fase em Animal Man é ao mesmo tempo homenagem, paródia, análise, desconstrução e exemplificação do gênero”. [QUADRINHOS]

A ERA DE PRATA DA DC: TRAÇO LIMPO, FICÇÃO CIENTÍFICA, PERSONAGENS NORMAIS

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O site Comic Book Historians publicou um artigo sobre a Era de Prata da DC. O objetivo era identificar as suas principais características, os gibis que as inauguraram e melhor exemplificaram, e o ponto em que a chave virou -- o início da Era de Bronze.

Conforme o artigo explica, as principais características da Era de Prata na DC foram o “a estética limpa do traço da época, a introdução de personagens inspirados na ficção científica, com uma fascinação pelos possibilidades da ciência e da tecnologia, e uma história com uma fórmula específica, em que uma cara normal consegue poderes através de um evento bizarro de ficção científica, ou a simples reformulação de um herói da Era de Ouro”.


O traço limpo está bem exemplificado em Superman’s Pal Jimmy Olsen #1, de 1954: é a estréia de Curt Swan como desenhista do Super-Homem [personagem que ele desenharia por trinta anos]. Detective Comics #225, de 1955, tem a estréia de um personagem de ficção científica: o Caçador de Marte. Showcase #4, de 1956, a estréia do Flash/Barry Allen, combina “a estética, o personagem de ficção científica” e a trama em que “um humano normal é transformado por um evento bizarro de ficção científica em algo super-humano”.


Showcase #80, de 1969, é o ponto de virada: “é a história que trouxe de volta o Vingador Fantasma, o personagem de suspense e horror de 1952, o que aponta para o início do retorno da fascinação pré-Código com a escuridão e o terror que foi uma parte do início dos anos 70. O gibi também é importante porque Carmine Infantino trouxe Neal Adams de volta para a DC”.  [QUADRINHOS]

IMAGE COMICS, 25 ANOS: “LEE, LIEFELD E MCFARLANE FORAM À MARVEL FALAR QUE OS DESENHISTAS DE 44 DOS 50 GIBIS MAIS VENDIDOS DE 1991 IRIAM FORMAR A SUA PRÓPRIA EMPRESA”

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A Image faz, em 2017, 25 anos de vida. David Harper escreveu no The Ringer uma matéria completíssima sobre a sua história. Tem páginas e páginas: inclui entrevistas aos principais envolvidos [incluindo aí Robert Kirkman, o primeiro sócio novo da editora depois de sua fundação] e fotos, e vai de Youngblood a Saga.

Começou com Todd McFarlane [“ele não acreditava que tinha o respeito que achava que merecia dos seus editores. Os dias estavam ficando cheios de pequenas confrontações bobas com a Marvel sobre o rumo da série, e, com o seu primeiro filho a caminho, McFarlane estava cheio”] encontrando Rob Liefeld e Erik Larsen: “nós três tínhamos a mesma ideia geral, mas estávamos seguindo caminhos separados. Porque não deveríamos fazê-lo juntos?”.


O primeiro passo foi uma reunião entre Liefeld, Larsen, Jim Valentino e o publisher da Malibu Comics, Dave Olbrich, na San Diego Comic-Con de 1991. Valentino subiu no barco, Olbrich topou assumir a logística. Quando eles foram para Nova Iorque comunicar à Marvel a decisão de pular fora da editora, McFarlane encontrou Jim Lee e Marc Silvestri: “na manhã seguinte, eles eram seis. Lee, Liefeld e McFarlane se encontraram com a Marvel para falar para eles que os desenhistas de 44 dos 50 gibis mais vendidos de 1991 estavam saindo de lá para formar a sua própria empresa”. [QUADRINHOS]

MULHER MARAVILHA, DE PATTY JENKINS E GAL GADOT: ALÉM DAS TRINCHEIRAS

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Mulher Maravilha
Patty Jenkins, Geoff Johns, Allan Heinberg, Zack Snyder, Charles Roven, Deborah Snyder, Richard Suckle
[Warner Bros, 2017]

Mulher Maravilha, o filme, gerou muitas respostas contraditórias. Isso aconteceu em grande parte porque o nerdismo estava fazendo as perguntas erradas.

A primeira dessas pergunta é: o filme da Mulher Maravilha é uma peça de propaganda feminista? 

Por um lado, parte do resenhismo viu no roteiro de Mulher Maravilha uma execução da proposta da versão feminista da Jornada do Herói de Joseph Campbell, proposta por Maureen Murdock em A Jornada da Heroína. É um argumento tão fácil quanto falso: é verdade que o filme segue os passos básicos da Jornada da Heroína, mas isso é porque a Jornada da Heroína segue os passos básicos do monomito, um dos “modelos” de roteiro mais usados de Hollywood nos últimos quarenta anos.

A diferença entre a jornada da heroína e a do herói é que Murdock propõe uma forma de realizar esses passos para alcançar um determinado objetivo: algo como a emancipação feminina. Assim, ela sugere que a jornada da heroína comece com a protagonista exercendo uma função tipicamente feminina em uma sociedade patriarcal [o “mundo comum”], rejeitando-a por uma tipicamente masculina [“cruzamento do primeiro portal”], o que, depois de um aparente sucesso inicial, leva ao fracasso [a morte simbólica], “ressuscitando” de uma forma que combina o feminino e o masculino em uma personalidade integrada [isso é um resumo: a jornada inteira tem uns vinte passos]. 

TRUMP, DE HARVEY KURTZMAN: “O SONHO DA VIDA DE HARVEY”

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Denis Kitchen, criador da Kitchen Sink Press e do Comic Book Legal Defense, foi entrevistado por Nicholas Yanes. A entrevista foi publicada no Sequart. O principal assunto é Trump: The Complete Collection, republicação anotada pelo próprio Kitchen, lançada pela Dark Horse, da revista editada por Harvey Kurtzman [logo depois que ele saiu da Mad] e publicada pela Playboy.

A revista Trump, é claro, foi um fracasso: só durou duas edições, publicados em 1957. Conforme explica Kitchen, “considerando os recursos de Hefner e o tremendo talento que Kurtzman trouxe junto [Will Elder, Jack Davis, Al Jaffee, Arnold Roth, Wally Wood, Russ Heath, até mesmo Mel Brooks], seria de se esperar um grande sucesso. Mas por um monte de motivos complicados sobre os quais eu falo na hq, Hefner fechou a revista quando a terceira edição estava montada. Conduzir uma revista colorida era o sonho da vida de Harvey, e o cancelamento partiu o seu coração”.


Um dos problemas, ainda conforme Kitchen, era que “Hefner se envolvia muito com a Trump, assim como ele fez por muitos anos na tira da Playboy da ‘Little Annie Fanny’. Hef podia se dar ao luxo de contratar os melhores talentos, mas ele não conseguia respeitar suficientemente esse talento como para manter-se afastado. No caso da Trump, ele também teve alguns problemas financeiros inesperados em 1957 que afetaram a sua decisão de matar a revista na sua infância. Mas, no lado criativo, Hefner era um cartunista frustrado. Foi assim que ele começou a sua carreira. O principal problema era que Harvey e Hef não estavam na mesma página em relação ao humor, mas Hef, que era quem assinava os cheques, sempre tinha a última palavra”. [QUADRINHOS]

CHIP KIDD: “MARSHALL ROGERS TINHA UMA SENSIBILIDADE MODERNA INFLUENCIADA PELOS ANOS 40”

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Dan Greenfield, do 13th Dimensions, entrevistou Chip Kidd [de Batman: Death by Design]. Kidd é um premiado designer de capas [trabalha na editora Random House], mas foi entrevistado por ser um über nerd do Homem Morcego. 

Pra tu ver o nível, a primeira parte da entrevista é dedicada à sua coleção de memorabilia [armazenada em um apartamento de cobertura em Manhattan]. Inclui dois encadernados “de páginas originais de quadrinhos com capas de vidro customizadas, edições completas de gibis, incluindo Batman & Robin #2, de Grant Morrison e Frank Quitely”.


Na segunda parte, Kidd fala sobre as primeiras histórias do Batman -- primeiras mesmo, pré-Batman #1: “esse punhado de histórias do Batman que são anteriores a Batman #1, anteriores ao Robin… são as melhores! Elas são estranhas e desengonçadas, as orelhas do Batman são gigantescas, ele tem uma arma, ele é cruel, ele se livra dos vilões do jeito que acha que deve, o Coringa é assustador….”.


Na terceira parte, Greenfield e Kidd acabam conversando sobre Marshall Rogers [que acabaria falecendo meses depois]: “Rogers era muito mais estilizado do que Neal Adams. Era quase uma sensibilidade moderna influenciada pelos anos 40. A forma que a capa dele fluía a forma que os efeitos sonoros eram integrados aos quadrinhos… tem um pouco de Art Deco ali, e não tinha nada disso em Adams”.

Ainda dá tempo de ficar derramando elogios sobre Batman: Ano Um e O Cavaleiro das Trevas [a capa dos encadernados, a propósito, foi projetada por Kidd].  [QUADRINHOS]